
sorvi do tempo o que
não se podia perscrutar
avancei mar adentro
penetrei o mel e a azia
de cada sentimento
tra(vesti) a dor de poesia
embalei canções uterinas
em ventre rasgado de dor
vi papoulas regadas a urina
senti seu odor
coisas escandalosas
cortam os dias
coisas vãs e tortas
são abelhas africanas
na boca de homens improbos
almas vazias mentes insanas
a sombra das árvores que ainda salivam
foge dos homens cuja calçada é o sol
os homens não sabem que as árvores uivam
figuras espectrais rondam as ruas
há medo em olhares altivos
vestes camuflam almas nuas
há espelhos em cada canto
refletem imagens disformes fugidias
um pardal entoa seu can(pran)to
notas afinadas porém tardias
a pressa é hipertensa foge do sono
incute ao paladar sequidão losna de abismo
halitose labirintite fobia abandono
em cada olhar um caco de vidro
arranha a tênue imagem da esperança
lâmina na cama faz vazar o prurido
ossos estralam ouço seus gritos
osteoporose artrose lordose
vidas lânguidas em leitos aflitos
sorvi do tempo a parte dentada
protuberantes caninos e molares
mandíbulas afiadas ranhuras
marcas da poderosa arcada
o que resta são meros disfarces
Úrsula Avner
* poema com registro de autoria
* imagem do google
