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quarta-feira, 10 de março de 2010

* Do que é (in)finito *

aconteceu
num mes qualquer
num dia qualquer
é tão enfadonho
lembrar datas
evocação da finitude
sob disfarce de viva memória

fotos são contempladas
como se houvesse algo ali
como se o ontem ainda fosse
passado com cara de hoje

o tempo que era
que foi
que não mais será
ou ainda virá
é conjugação verbal

meus olhos nus
postados no espelho
são o que me valem

ontem
poeira guardada
em gavetas

amanhã
mistério ainda
não traçado em letras

Úrsula Avner

* imagem do google

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

* Visão de mundo *


sorvi do tempo o que
não se podia perscrutar
avancei mar adentro

penetrei o mel e a azia
de cada sentimento
tra(vesti) a dor de poesia

embalei canções uterinas
em ventre rasgado de dor
vi papoulas regadas a urina
senti seu odor

coisas escandalosas
cortam os dias
coisas vãs e tortas
são abelhas africanas
na boca de homens improbos
almas vazias mentes insanas

a sombra das árvores que ainda salivam
foge dos homens cuja calçada é o sol
os homens não sabem que as árvores uivam


figuras espectrais rondam as ruas
há medo em olhares altivos
vestes camuflam almas nuas

há espelhos em cada canto
refletem imagens disformes fugidias
um pardal entoa seu can(pran)to
notas afinadas porém tardias

a pressa é hipertensa foge do sono
incute ao paladar sequidão losna de abismo
halitose labirintite fobia abandono

em cada olhar um caco de vidro
arranha a tênue imagem da esperança
lâmina na cama faz vazar o prurido

ossos estralam ouço seus gritos
osteoporose artrose lordose
vidas lânguidas em leitos aflitos

sorvi do tempo a parte dentada
protuberantes caninos e molares
mandíbulas afiadas ranhuras
marcas da poderosa arcada
o que resta são meros disfarces

Úrsula Avner


* poema com registro de autoria
* imagem do google

sexta-feira, 8 de maio de 2009

* Sala de espelhos *



Tantas vezes olhei para mim mesma

ainda olho

Olhar atento de quem busca o que é familiar

e encontra o inexplicável

Olhar enviesado de quem duvida de si mesma

e se depara com o inevitável

Do avesso me reviro

Chocalho de sentimentos

Balanço alvoroçado de emoções

alvejadas por complexos pensamentos

Não posso fugir de mim mesma

Espelhos internos e externos

cercam-me por todos os lados

nos meus espaços quadrados

Reflexo indelével

do que não posso deixar de contemplar

Sinal incontestável

do que cotidianamente

há de me acompanhar

Um olhar atônito atravessa o tempo

fica guardado no cristal dos espelhos

Vejo uma figura estranha

cujo processar é lento

Úrsula Avner

* poema com registro de autoria

* imagem pesquisada no Google- desconheço a autoria

terça-feira, 5 de maio de 2009

* Sobre o envelhecimento



Nesta manhã que irrompe majestosa

Não me vejo mais envelhecida

Vejo-me mais inteira, até mais vistosa

As vigas no rosto não me emudecem

As sombras do passado não me fenecem

Em mim, encontro algumas fendas

por onde escorrem a luz da reflexão

Sou capaz de me olhar no espelho

e encontrar alguma paixão

descobrir que sou fecunda

que em meu ser, a vida ainda abunda

desejosa de parir meus anseios

ainda saltitantes

feito milho transformado em pipoca

feito beijo quando estrala e espoca



*Úrsula Avner

* Este poema é uma singela homenagem aos idosos

* imagem retirada do Google- desconheço a autoria
* poema com registro de autoria

quinta-feira, 30 de abril de 2009

*Resquício de outono



Hoje amanheci inverno

gosto de folhas secas na boca

resquício de outono

em meu tempo interno

Um vento gélido laminando a alma

sibilando no vão dos sentimentos

açoite na pele dos pensamentos

Levanto-me serena e calma

um feixe de luz solar invade o quarto

Hoje não almejo o espelho da claridade

quero a penumbra que se aloja na dor do parto

das reflexões gestadas pela serenidade


Úrsula Avner

* poesia com registro de autoria

* imagem do Google

segunda-feira, 13 de abril de 2009

* Vaso de barro *


Não estou pronta
Sou um ser inacabado
Vaso de barro
Peça de escultura em reparo
Nas mãos do oleiro, moldado

O que sei de mim
é o que recolho
das lamas do meu manguezal
O que desconheço
está imerso nas areias amarronzadas
do meu íntimo abissal

A imagem no espelho
fita-me atônita
clama por uma resposta
uma palavra tônica
um gesto, um simples rito
Nada acontece
Apenas o cavernoso silencio permanece

* Úrsula Avner *
* imagem retirada de pesquisa feita no Google
* poesia com registro de autoria

sexta-feira, 10 de abril de 2009

* Algumas reflexões



Não posso falar de mim mesma
sem o olhar fito no fantasma da incerteza
figura que me assombra
lembra-me que sou complexa, sou mistério
De mim, a vida zomba
porque sabe que eu não me encontro inteira
Quando me olho no espelho
que o tempo cravejou

vejo-me multifacetada
feita em pedaços, interrogação certeira

* Úrsula Avner *


* poesia com registro de autoria- Lei 9.610/98 dos direitos autorais

quinta-feira, 9 de abril de 2009

* Crisântemos vermelhos*



Aproximou-se de mim com serenidade
como um sopro de brisa primaveril
tocou minha face sem fazer alarde
acendeu em meu peito o pavio
tateou suas mãos orvalhadas
pelo meu corpo já cambaleante
sussurrou palavras de amor adornadas
com respiração ofegante
Chamou-me amada de minh´alma
envolveu-me em seus braços com surpreendente calma
lançou-me o olhar do desejo em estilhaços
refletido em espelhos do brilho aveludado
dos crisântemos vermelhos


* Úrsula Avner * ( Obrigada por sua visita ! )



* poesia com registro de autoria