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terça-feira, 21 de junho de 2011

* Náufrago(do verbo)

nu da minha voz : Gabriela Boechat

calou-se
adormeceu sobre versos
que submergiram
lacrimejou
sobre a folha vazia
alva e gélida

espanto de si mesmo

é no vácuo
que algo acontece
não há movimento
sem queda
sem espaços vazios

que o sono seja
longo e reparador
que sonhos tragam
fragância e bolor

Úrsula Avner

quarta-feira, 1 de junho de 2011

* Galho seco *

acrílico sobre tela : mulher dormindo- Sóra Lobo

não me sabia
secreta
quando dormia
e quando o sono
se alongava
já não era a noite
tela vazia
onde bordam-se sonhos
até que seja dia

quando o sono
se alongava
eu me perdia
no espaço infindo
da alma fugidia
que pranteando
ou sorrindo
se desfazia

não me sabia
inteira
quando entendia
de dormir o sono
da folha travessa e iludida
de um galho seco caída

Úrsula Avner

sexta-feira, 20 de maio de 2011

* Anoitecendo* ( segundo canto)

tela: Duy Huynh

o corpo do dia
esticado
no varal dos olhos

se o orvalho
transcendesse
a gota
seria dilúvio
não caberia
em meus olhos
calejados de ver
a face do mundo
do mudo
do que é fundo
e não transborda

de longe
a noite espia

se estrelas cantassem
em coro afinado
embalariam meu
sono caloso
macerado
fadigado
amofinado

vem o clarão da noite
em pele fina
e ainda é dia

Úrsula Avner

sábado, 30 de outubro de 2010

* Vida súbita *


imagem : Google- sem informação de autoria

saltou do casulo
seu útero de certezas
abriu as asas
como se desejasse
violar o azul do céu
aceitou o breve destino
partiu serena e ávida
até encontrar
o sono da noite
desencapado fio do silêncio

Úrsula Avner


domingo, 22 de agosto de 2010

* Sondagem *


tela : pássaro contemplativo
autor: José Carlos Rodrigues

quando a ave do desejo
em teus olhos repousar
lembra-te de que és passageiro
andarilho em noites de luar

pássaro estrangeiro
vieste te visitar
não sabe do teu sono
ou do teu caminhar

chuva pranteou no telhado
mas bem que podia
ter sido em ti
a alma trêmula escandesce
o que se quer encobrir

Úrsula Avner

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

* Insônia *




tela : You are not alone ( Você não está sozinha)
by: Mel Gama


pulo do gato

venceu o sono das horas

atravessou madrugada

rasgou o véu do silêncio

lua andou zonza e grávida


vidas se movem no telhado

dormir é privilégio dos justos

e quem o é ?

Sei dos meus ardores

destino traçado

na borra do café



Úrsula Avner


* poema com registro de autoria

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

* Visão de mundo *


sorvi do tempo o que
não se podia perscrutar
avancei mar adentro

penetrei o mel e a azia
de cada sentimento
tra(vesti) a dor de poesia

embalei canções uterinas
em ventre rasgado de dor
vi papoulas regadas a urina
senti seu odor

coisas escandalosas
cortam os dias
coisas vãs e tortas
são abelhas africanas
na boca de homens improbos
almas vazias mentes insanas

a sombra das árvores que ainda salivam
foge dos homens cuja calçada é o sol
os homens não sabem que as árvores uivam


figuras espectrais rondam as ruas
há medo em olhares altivos
vestes camuflam almas nuas

há espelhos em cada canto
refletem imagens disformes fugidias
um pardal entoa seu can(pran)to
notas afinadas porém tardias

a pressa é hipertensa foge do sono
incute ao paladar sequidão losna de abismo
halitose labirintite fobia abandono

em cada olhar um caco de vidro
arranha a tênue imagem da esperança
lâmina na cama faz vazar o prurido

ossos estralam ouço seus gritos
osteoporose artrose lordose
vidas lânguidas em leitos aflitos

sorvi do tempo a parte dentada
protuberantes caninos e molares
mandíbulas afiadas ranhuras
marcas da poderosa arcada
o que resta são meros disfarces

Úrsula Avner


* poema com registro de autoria
* imagem do google

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

* Vozes na escuridão *



Quando a noite repousa
estrela despenca do céu
queda bruta

borboleta corre
ébria e nua
absoluta

coruja pia
lamento de quem vigia
o sono da noite


Úrsula Avner

* imagem do Google- sem informação de autoria