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segunda-feira, 24 de maio de 2010

* Asas quebradas *

recolhi minhas asas
as guardei no baú
onde vivem teias amorfas
as cobri com a leveza da seda

com o veludo de pétalas de rosas
(hoje) sou pássaro ferido
insensivelmente abatido
vaso de barro trincado
em pedra fria esculpido

quero voar novamente
levar em minhas asas
alguma semente
de esperança, de amor
vida em botão de flor

quero arejar em minhas asas
antigos versos rimados
sentimentos alados
poesia cantada solfejada

decido abrir o baú
tapar as narinas
ao cheiro acre
do bolorento destino

quero remover o lacre
ouvir o badalar do sino
permito que o oleiro
repare o vaso
conserte as asas quebradas

encontro novas moradas
sou de novo
fluidez em poesia
em versos ritmados
em rimas cantadas

Úrsula Avner


* esse poema foi um dos primeiros que compus e é dedicado á talentosa e querida amiga Glória Salles
* imagem do google- desconheço a autoria

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

* Visão de mundo *


sorvi do tempo o que
não se podia perscrutar
avancei mar adentro

penetrei o mel e a azia
de cada sentimento
tra(vesti) a dor de poesia

embalei canções uterinas
em ventre rasgado de dor
vi papoulas regadas a urina
senti seu odor

coisas escandalosas
cortam os dias
coisas vãs e tortas
são abelhas africanas
na boca de homens improbos
almas vazias mentes insanas

a sombra das árvores que ainda salivam
foge dos homens cuja calçada é o sol
os homens não sabem que as árvores uivam


figuras espectrais rondam as ruas
há medo em olhares altivos
vestes camuflam almas nuas

há espelhos em cada canto
refletem imagens disformes fugidias
um pardal entoa seu can(pran)to
notas afinadas porém tardias

a pressa é hipertensa foge do sono
incute ao paladar sequidão losna de abismo
halitose labirintite fobia abandono

em cada olhar um caco de vidro
arranha a tênue imagem da esperança
lâmina na cama faz vazar o prurido

ossos estralam ouço seus gritos
osteoporose artrose lordose
vidas lânguidas em leitos aflitos

sorvi do tempo a parte dentada
protuberantes caninos e molares
mandíbulas afiadas ranhuras
marcas da poderosa arcada
o que resta são meros disfarces

Úrsula Avner


* poema com registro de autoria
* imagem do google

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

* Brasil em carne viva *



Como me calar diante de tantas atrocidades ?

Vidas clamam nas ruas por dignidade

aquilo de que necessitam não é piedade

mas sim, direitos garantidos, oportunidade



Ouço muitos gemidos

o país adoeceu

fugiu a mãe gentil

dos filhos deste solo

o gigante dorme


em berço esplêndido

sem ter da genitora o colo


O sonho intenso

se transforma

em pesadelo imenso

sem raio vívido

Onde está o céu risonho e límpido ?


Onde há no seio da pátria mais amores ?

O que vejo é uma passarela coberta de cinzas

onde há solene desfile de dores

alguma alegria transitória e débil


dança nas ruas

fixa em cada rosto


máscaras incolores


A verdade é mulher que anda nua

não pode ser ignorada

carne aberta e crua

Fechou-se o riso dos lindos campos floridos

onde estão as margens plácidas do rio da esperança ?

Se houve glória no passado, que paz haverá no futuro ?

No que se transformará o viço da criança ?


Quero acreditar na mudança

mas só vejo o céu escuro

não posso deixar

que arranquem

a minha raiz

ainda choro quando ouço


o hino do meu país


Úrsula Avner


* este texto foi postado no site www.sitedepoesias.com.br/poetas/avner no ano passado ; é um desabafo que o meu senso de justiça me impeliu a registrar.

* a imagem é do Google e desconheço a autoria

Meu sincero agradecimento a todos que me visitam !

sábado, 11 de julho de 2009

* Solitária canção *



Protejo-me de mim mesma

em frágil redoma

onde contemplo minhas vicissitudes

traspassadas por enigmáticas atitudes



Sentimentos falam por mim

o que eu mesma não decifrei

palavras me retalham por fim

em versos que eu simplesmente inventei



Em minha bojuda campânula

permaneço alicerçada a inexoráveis mistérios

enjambrada nesta perene cúpula

onde se ramificam segredos etéreos



Divago em sonhos evaporáveis

resquícios de uma ébria ilusão

nutrindo esperanças que julguei indenizáveis

perco-me no arpejo da minha solitária canção



Úrsula Avner


* poesia com registro de autoria

* imagem retirada do Google