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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

* Multiplicidade *

tela : Gustav Klimt

porque me ignorou o sol
peguei carona com a lua
andei doidivana
fui Maria Clara, Celina, Ivana
já nem sei quem sou
estranha vida mundana

não há vírgula
entre o bem e o mal
entre a loucura e a lucidez
sequer um hifen
ou ponto final

quando bebo
do mesmo azul
de que se valem
os pássaros
o que é vida tardia
desagua em riso frouxo
quase alucinado
onde só se vê poesia
e a onipotente lua
plainando sobre água fria

Úrsula Avner

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

* Estação *

tela : Gustav Klimt

colou em mim
estado de árvore
como sede
de um rio sequíssimo

calou em mim
o que foi dilúvio
água (trans) lúcida
feito pele argêntea de lua

leitosa
pedante
nua

Úrsula Avner

domingo, 11 de julho de 2010

* (Des)encontro familiar *


Tela : Café na roça
artista : Cristina

algo acontece


quando os talheres tinem


pratos se estranham


na mesa posta



não é ao acaso


que flores esperam


em jarro de água fria


silenciosas inertes


apenas observam


os espasmos do dia


aquilo que de outro modo


não vivenciariam



agarra-se á áurea do cotidiano


lamento das horas


os mesmos gestos


as mesmas palavras


cirandam a mesa



os mesmos ritos


as mesmas risadas


pães dormidos na cesta



Úrsula Avner


* poema inspirado no livro " Reunião de família " de Lya Luft.
Obrigada por sua visita e comentário !

sábado, 27 de março de 2010

* Sede *

arte : I want to live ( eu quero viver )
By : Mel Gama

um rio seco

atravessa a garganta

o não dito

o mal dito

escoam

no suor da testa vincada

na espinha que abre a face

no pisca-pisca dos olhos

(mar)ejados

arejados de mar

de uma água

salgada e fria

de uma dor

que não se sabia

Úrsula Avner

terça-feira, 15 de setembro de 2009

* Incontinência *


lágrimas escorrem

como seiva do caule

gota a gota

salgam o oceano

levam dores e alegrias

no dorso de noites e dias


lágrimas escorrem

feito água de chuva

gota a gota

inundam o solo

fazem curva

cobrem do rio o colo


lágrimas escorrem

enquanto luzes dormem


Úrsula Avner


* imagem retirada do google- sem informação de autoria

* poema com registro de autoria

quinta-feira, 9 de julho de 2009

* O suor do poema *




Nos escorregadores da memória

pensamentos deslizam

querem transmutar

palavras se aninham

tecem estórias


O poema transpira

alguns tímidos versos

extravasam emoções pelos poros

Ofegante o poema respira

pétalas frescas são colhidas

por um anjo azulado

no chão do pensamento orvalhado


Nos sulcos profundos da alma

sentimentos falam mais que mil palavras

ouso tracejar algumas linhas

letras mal esboçadas

na folha que almeja pelo poema inteiro



Versos me escapam

como filetes de água

escorrem entre os dedos

umedecem as paredes dos desejos



Persiste o sonho do poema

em brocal bordado

do verso pulsante

despudorado

do verso ainda não plantado

ausente da vida uterina

tão efusivamente sonhado

semeado para germinar

cumprir sua sina



Poema

te quero em versos impensados

que me venham como larvas vulcânicas

cuspidas no destino da folha



Te quero lacrimejante

como quem verte lágrimas de pus

brotoejas na alma das palavras

Te vejo como chamas flamejantes

em versos nus

que ardem a dor

das vontades aprisionadas



Úrsula Avner



* poema com registro de autoria

* imagem retirada do Google